Glória Sachi é a minha amiga mais intensa, mais verbal, a pessoa que melhor representa esses tempos de comunicação, pois ela comunica! Ela se mostra, se bloga e usa palavras. É uma rara amizade virtual. Destaco esse ponto pois não me vale a amizade virtual se não se prover da possibilidade do encontro, ao que se chame olhos nos olhos. Engraçado, mas talvez caracterize o antigo direito olho por olho, pois aqui se dá, aqui se recebe, o texto, as suas palavras. Mas essa amizade persiste mesmo na distância, é como se nós fôssemos a própria comunicação, não mais o receptor e o transmissor. Porque, em começo, eu era o transmissor. Depois os papéis mudaram. Em palavras recentes: 'Agradeço-a por ter sido minha "leitora" e surpreendi-me quando você deu vazão, as suas palavras que tomaram dimensão a qual pudemos compartilhar riquezas internas, que são os pensamentos, suas nuances e seus meandros'.
Há pouco eu me questionei. De que vive essa amizade? Não sei bem esmiuçar. Então, recorri a uma tentativa de registrar essa história, principalmente de um ponto agravante que ocorreu entre nós. Um ápice de história. Há de se dizer, se há o ápice, significa o evolução. E depois, a involução. Creio hoje estável.
Foi, então, que num dia eu sofri um efeito reverso sob efeito alcóolico. Acordei de tal lucidez em que, em segunda vez, resultou a segunda poesia do L. Pudera, gLória, éLcio.O nosso próximo contato foi a minha requisição de seu endereço de contato. Pois bem, aguardei meses, ela enviou-me a carta. Betty Boo era a que acenava.
Em fundo de foto, estava Caetano! Que gafe, ela não sabia que eu não gostava de Caetano. Mas não era acaso de revés, uma carta expressa pela moça que até minha mãe desconfiou o conteúdo. Era a primeira e última carta dos anos (2002), a anterior foi em 1997. E por que a requisição da carta? Em verdade, era um desejo de resgate do papel. Era o papel que pedia, pois em tempos de revolução da comunicação, eu já era (e ainda sou, 2006) um dos raros leitores de monitor de computador, a ponto de preferir a tela ao papel. Pudera, eu posso comemorar 20 anos de uso de computador. Uma carta que esperou meses a chegar. Eu tentava relacioná-la a música de Cássia Eller, pois de mesmo mistério que a carta não chegava, a música causava estranheza em sua letra. Demorou, esperou, até que meu computador pifou. A caixa de entrada cansou de esperar e o modem pifou. Até que enfim chegou. Lá estava ela! A carta de Glória. O que era para ser a emancipação do encontro programado em dia posterior da poesia do L, desencontrou-se no tempo. E agora, como poderia comunicá-la? Retornar em papel? De qual imediatismo eu tomaria do modem pifado? Foi a primeira vez que troquei um driver de computador. Os técnicos de informática sabem que seria como a primeira vez de abrir uma fechadura, bastava uma chave nova. Eis a chave nova, uma porta que não se abria por semanas, o ar que se estagnou. Senti a brisa primeira dos corredores do chat. Foi então que o excesso de oxigênio construiu a cena. Estabeleci o enlace com ela e ela esbravejou. Disse-me palavrões fora do nosso dicionário habitual. Eu me calei. Coloquei a sua denúncia contra ela. E o silêncio pagou por esses anos. E o que era a denúncia? A falta de resposta. Resultou. Acabou em pixels. Os pixels apagaram e a tela apagou por anos. O silêncio é o mimetismo da ausência.